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sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A sedução e a alienação são as piores tiranias de nossa fraca democracia

O olho do dólar: aquele que tudo vê e seduz. O poder está na parte superior da pirâmide, que representa a sociedade. A sociedade, por sua vez, é observada e seduzida pelo poder. 

Certa vez, o roqueiro Lobão, em uma das suas polêmicas entrevistas, disse que após a abertura de mercado, ocorrido na era Collor, e posteriormente com o advento do plano Real, as classes menos abastadas puderam enfim adquirir a nova tecnologia de compact disc (CD). Como havia uma crescente estabilização da moeda nacional, o mercado fonográfico mudou o foco de suas vendas e investiu forte na cultura de massa, deixando de lado, quase que por completo, a parcela do mercado que demandava um teor crítico ou a poesia/prosa bem construída. Essa época ficou marcada com o surgimento do pagode de massa e de grupos como “É o Tchan”. O próprio Rock Nacional, ácido e crítico e que esteve em alta nos anos 80, entrava em decadência. Lobão afirmou que incitava-se ali uma cultura de massa voltada exclusivamente para os descerebrados. Daí é possível verificar o poder que a imprensa tem sobre a grande massa. 

Para que divulgar cultura se é muito mais fácil controlar uma nação condicionada ao entretenimento pobre e sem propósito? Ao invés de criarmos mestres e cabeças pensantes, criamos ovelhas obedientes, incapazes de reivindicar seus direitos - este é o pensamento mais perverso da classe dominante e, sobretudo, daqueles que dominam a opinião pública.


O espaço da mídia, o entretenimento do povo, poderia ser mais construtivo. Poderia conscientizar a massa a pensar para agir, não agir sem pensar. Dizem que vivemos em uma democracia. Etimologicamente, democracia é o governo do povo, para o povo e com o poder equitativamente distribuído entre todos os cidadãos. No entanto, a mídia se ocupa apenas em entreter para alienar e fazer consumir sem pensar. 

O ápice desse princípio pode ser considerado o programa da Rede Globo de Televisão chamado "Big Brother". O mais curioso é o surgimento desse nome. O nome surgiu no livro "1984", do escritor inglês George Orwell. Big Brother é o conhecido ditador de um suposto país controlado por um sistema fascista e tecnocrata, num futuro relativamente próximo (o livro foi escrito no início dos anos 30 e a história se passa no ano de 1984). O controle é feito por câmeras espalhadas por todos os lugares, não havendo sequer privacidade alguma. Cada passo em falso e cada manifestação contra o governo vigente seria rapidamente detectado pelas câmeras e a punição seria rápida. A obediência se tornou automática. As pessoas da suposta sociedade futurista eram condicionadas a obedecer como robôs. Não havia um pensamento autônomo e independente do Big Brother, nessa suposta ditadura fictícia. 

 


Voltando à realidade, a nossa realidade brasileira, contamos com uma sociedade que se diz democrática, mas que na verdade é condicionada a obedecer aos comandos publicitários do comércio veiculado pela mídia. Quanto ao programa "Big Brother", trata-se de jovens presos em uma mansão, disputando um prêmio de milhões e, para tanto, participando das mais diversas barbaridades, como jogos absurdos e humilhações, para conquistar o prêmio principal ou mesmo outros, secundários. 

Patrocinadores elevam o status do programa, tratando-no como um evento imperdível. Por míseras moedas, as pessoas votam no participante que deve cair, em cada paredão. São vários. Cada voto, uma ligação. Cada ligação, um lucro, dividido entre a empresa de telefonia, a Rede Globo e os patrocinadores, que investem milhões para que a coisa toda se mantenha no ar. Segundo divulgado pela própria emissora, são dezenas de milhões de ligações. O lucro é certo.

O que se vê é um verdadeiro show de horrores: luxúria, traição, vaidade, preguiça, egoísmo, inveja e mais um monte de pecados. Talvez, neste ponto, o programa realmente mostre o show da vida, pois tudo isso é o retrato fiel do lado negativo do ser humano, o mais aparente. Os telespectadores se divertem, consomem os produtos que a propaganda mostra e, assim, esquecem-se dos problemas do país ou mesmo individuais.

São semanas em que essas pessoas se voltam para o mundo ideal da fantasia, criado exclusivamente para alienar e prender a atenção daqueles que poderiam pensar por si sós. Se o Jornal Nacional mostra a realidade e cria o desejo por justiça, tudo cai por terra em virtude do sedativo que os programas de entretenimento injetam nas pessoas. Até que o cérebro processe o desejo por manifestações populares, algo  que deveria ser feito de forma planejada e com a contribuição de toda a sociedade (a verdadeira democracia), o entretenimento dá o sedativo necessário para a amnésia social, condicionando uma realidade paralela de hedonismo.  

Nessa democracia paradoxal, onde as pessoas viram escravas por vontade própria, onde almas se vendem para que o mundo de aparências seja mantido, a realidade brasileira continua, cada vez mais torpe, cada vez mais pobre. A mídia é uma parasita que deveria conscientizar. Mas ao invés disso, tira proveito da situação, alienando e condicionando as pessoas a se absterem de brigar por seus direitos.

Não existe tirania pior do que tirar do povo o poder de pensar por si só. E nos tempos em que vivemos, isso é sinônimo de democracia.                    


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