Violência camuflada: Pior que um soco na cara!
Vivemos numa constante guerra e não me refiro exclusivamente à violência barata que assistimos na TV. Aliás, violência tem de diversos tipos e tamanhos.
Vamos caracterizar violência como o desrespeito pelo próximo que pode ser ostensiva e direta ou mesmo indireta, camuflada. A violência direta nós conhecemos bem e logo a identificamos - é aquela que vemos nos noticiários baratos como o do Sr. Datena. Ali nos é mostrada a violência dos bairros menos abastados, onde pessoas sem a mínima condição de digna sobrevivência utilizam-se de meios ilícitos para ganhar a vida. Em contrapartida, enfrentam "verdadeiros" representantes da lei e da ordem. Conclusão: Este tipo de violência bang-bang já é muito conhecida, apesar de que sua fórmula ainda gera um bom IBOPE. Infelizmente, a classe média sentada em seu confortável sofá pago em suaves prestações, assiste a tudo isso com um certo preconceito, pois geralmente toma partido em relação a essa guerra de "mocinhos e bandidos" e não percebe que na realidade, o mundo cão é bem diferente do que um mero filme Hollywoodiano. Muitas vezes, não se passa pela cabeça de quem está do lado confortável da tela da TV que a polícia possivelmente é mais bandida que aqueles trapos humanos, muitas vezes em andrajos, que são considerados bandidos. Enfim, a vida real não é filme.
E a violência camuflada, indireta, como podemos caracterizá-la? Vejamos a seguinte situação:
Você é considerado um cidadão de bem que paga seus impostos com o dinheiro contado, devido à miséria que recebe mensamente por um trabalho duro. Acorda às 5h00 da matina, passa num posto de gasolina para abastecer seu carro, depois numa padaria para comer uma média de pão com manteiga e café com leite e vai trabalhar. No trabalho, a convivência social é, aparentemente, normal, pois pessoas comuns, também pagadoras de impostos, interagem-se umas com as outras. No final da tarde, você chega em casa duas horas depois de ter saído do serviço e liga a TV para assistir ao noticiário. Parece um dia comum dentro de um cotidiano comum.
Agora imagine que você acordou cedo, abasteceu seu carro num posto onde a gasolina é misturada com substâncias ilegais (que podem afetar o desempenho do seu carro), parou numa padaria para comer uma média de café requentado com um pão cuspido (isso mesmo, você não imagina como os padeiros preparam essas massas) - tudo feito numa cozinha habitada por ratos e baratas. Chegando no trabalho, você tenta interagir com pessoas que querem sempre puxar o seu tapete e que têm inveja de você. O seu chefe não acredita muito no seu potencial, pois na verdade, o que acontece é que você é bem melhor que aquele babaca que tem uma mesa um pouco adiante da sua, porém ele é sobrinho do diretor de marketing - um cabide, apesar da incompetência. No término do expediente, você demora duas horas num trânsito terrível que tentamos nos acostumar em vão, diariamente. Ao chegar em casa cansado, você liga a TV e assiste ao mundo encantado da Globo com as suas novelas alienantes. Muda de canal para não se contaminar e acaba caindo nestes noticiários sanguinolentos que servem única e exclusivamente para apavorar o telespectador comum.
A violência oculta é tirar o seu sossego, testar a sua paciência, ironizar com a sua sapiência, minimizar a sua auto-estima e ainda assim, cobrar-te impostos para viver indecentemente. Você paga impostos para ter uma polícia decente; paga impostos em todos os produtos que consome; paga impostos para que controlem a qualidade destes produtos que estão disponíveis no mercado e paga impostos para que pessoas que ganharam o seu voto de confiança, trabalhem para a sua qualidade de vida, para o seu bem estar e para a sua dignidade. No entanto, o que se vê é o desrespeito com este dinheiro contado - que poderia ser utilizado para se investir num futuro melhor.
Chego à infeliz conclusão de que a violência oculta é a grande causa da violência ostensiva, direta. Tudo ocorre porque promessas não são cumpridas, porque esperanças e sonhos são destruídos, porque o modelo do sistema vigente está completamente falido. Acusamos e mandamos para a cadeia pessoas que roubam ostensivamente uma macã na feira e deixamos soltos empresários e políticos que roubam milhões com a sua violência oculta. Porém, lembre-se: Enquanto você assistir e se deliciar com as aventuras e desventuras de um bando de alienados num programa como o Big Brother, de uma forma camuflada o seu dinheiro é roubado diariamente.
Preste atenção na violência oculta, camuflada. Ela é muito mais assustadora do que ser assaltado por um pé de chinelo qualquer na Praça da República às quatro da tarde. Este sujeito te leva algumas migalhas para comprar crack ou para comer alguma porcaria. Agora, o cara que pratica contigo alguma violência camuflada o faz porque primeiro, a sociedade está realmente corrompida e segundo, porque você não tem saída, pois não há meios de se defender numa sociedade onde são praticadas a corrupção, a lei de Gerson, a alienação, os falsos valores, o mau uso do dinheiro público etc
A violência oculta está em todas as classes sociais e em todos os lugares. Ela faz parte da cultura deste país que desde a sua colonização utilizou-se dela com ênfase.
Para você, cidadão comum, que paga os impostos e espera por dias melhores, resta apenas acordar e perceber que não pode mais se fazer de vítima para esse tipo de situação. Precisamos mudar essa cultura secular que é praticada neste país desde os tempos de Cabral e de Tomé de Souza. Precisamos cobrar, até com uma certa violência, nossos direitos da mesma forma que são cobrados os nossos deveres. Afinal de contas, para mudar este país, precisamos que o bom cidadão deixe de ser trouxa.
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